sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Brasil cada vez menos dono da sua indústria

Pensando o país de forma estratégica, em dezembro de 2011, o Clube de Engenharia lançou manifesto que alertava para a urgente necessidade de se restituir legalmente proteção às indústrias genuinamente nacionais. O documento, resultado de estudos de um grupo de trabalho formado no Conselho Diretor meses antes, apontava para os perigosos resultados do projeto neoliberal implantado no Brasil principalmente na década de 1990. Entre as primeiras conclusões estava a necessidade da restituição das proteções constitucionais à produção nacional, tendo como foco prioritário e imediato três áreas: indústrias de petróleo e gás, energia e defesa.

Mais de um ano depois, especialistas identi­ficam a desnacionalização como um de nossos maiores problemas, resultado direto da total displicência do poder público no que se refere à de­finição de uma política industrial que garanta desenvolvimento econômico e social com soberania. Sem políticas públicas que façam frente ao aumento do domínio internacional, a economia brasileira se distancia da situação dos países desenvolvidos e dos outros países integrantes do grupo BRICS (Brasil, Rússia, India e China). Em todo o mundo, ao contrário do que ocorre hoje no Brasil, são comuns políticas que têm como objetivo bene­ficiar exclusivamente empresas de capital nacional.

Os números são assustadores. De acordo com a pesquisa “Fusões e Aquisições” da KPMG Consultoria, em 2004, quando a pesquisa começou a ser feita, 69 empresas de capital majoritariamente nacional passaram para mãos estrangeiras. Os números escalaram até 2008 e 2009, quando houve uma pequena queda. Nos últimos três anos, no entanto, o número de empresas compradas por estrangeiros não parou mais de crescer e bateu recordes consecutivos. Em 2010, foram 175 e, em 2011, 208 empresas. No ano passado, 296 empresas nacionais passaram para o controle estrangeiro.


Embora o governo Dilma Rousseff esteja investindo no conteúdo nacional no que se refere às compras do Estado, o fenômeno, que pode ser visto como uma verdadeira tragédia, avança. Segundo o Banco Central, só no primeiro bimestre de 2013 houve um aumento de 221,78% nas remessas de lucros e dividendos das  filiais de multinacionais para suas matrizes em relação ao mesmo período no ano passado. Carlos Ferreira, engenheiro, membro do conselho editorial do Clube e representante da entidade no Fórum Permanente de 
Desenvolvimento Estratégico do Rio de Janeiro, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), destaca o rombo que isso representa nas contas do país. “Para se ter uma ideia da sangria que a desnacionalização representa, nos últimos dez anos foram remetidos 410 bilhões de dólares pelas empresas transnacio-nais para suas matrizes fora do país”, denuncia. Para deixar claro o que isso representa, Carlos usa como exemplo as reservas do Tesouro. “As reservas deixadas pelo governo anterior ao governo Lula eram de 25 bilhões de dólares. A duras penas, conseguimos acumular mais 345 bilhões de dólares em uma década. É menos do que foi enviado para fora e, vale lembrar, boa parte disso foi para empresas estatais de outros países”.


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