quarta-feira, 24 de abril de 2013

Bactéria produz óleo combustível


A solução de um dos maiores problemas ambientais do século – a crescente emissão de gases-estufa na atmosfera – pode estar entre os menores organismos do planeta, uma bactéria. Pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, descobriram que a Escherichia coli é capaz de gerar um biocombustível quase igual ao diesel. A bactéria usada no experimento converte açúcar em gordura, uma transformação necessária para a produção de suas membranas celulares. A equipe de Exeter aproveitou o óleo natural deste processo e, assim, criou moléculas de combustível sintético praticamente idênticas às do diesel convencional.
A substância desenvolvida pelo projeto britânico não precisa ser mesclada com produtos derivados do petróleo, como normalmente é necessário no biocombustível que provém de óleos vegetais. A produção ainda é pequena e exigirá maior investimento, mas é um sinal alentador para evitar o aumento da temperatura global nas próximas décadas.
O diferencial desta pesquisa é a adaptação perfeita da substância criada pela E. coli à tecnologia atual – ou seja, não seria preciso modificar motores, oleodutos ou navios petroleiros para receberem o produto gerado pela bactéria. Até agora, a maioria dos biocombustíveis estudados exigem mudanças na infraestrutura disponível. Pequenas frações deles precisam ser misturados com petróleo antes de aplicá-los à maioria dos motores.
- A produção comercial de biocombustíveis sem a necessidade de modificar veículos é, desde o início, o objetivo do projeto – explica o professor John Love, do Núcleo de Biociências de Exeter. – A substituição, em volumes comerciais, do combustível convencional por este seria um grande passo para reduzirmos a emissão de gases-estufa em 80% até 2050.
Muitas bactérias para uma colher de chá
Segundo Love, outra vantagem do uso da E. coli seria tornar o seu valor independente da flutuação do preço do combustível convencional e da instabilidade política em países produtores de petróleo.
- Queremos que fabricantes de automóveis e consumidores de biocombustíveis sequer reparem a diferença entre aquilo que vem da bactéria e o combustível convencional – revela.
O estudo britânico, publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS), foi desenvolvido com assessoria da petrolífera Shell. Rob Lee, do Núcleo de Projetos e Tecnologia da empresa, admite a urgência por um método de manufatura em larga escala como este, a partir da E. coli .
- A criação de moléculas de hidrocarboneto é importante para suprirmos a alta demanda que receberemos no futuro – ressalta. – Ainda enfrentamos muitos obstáculos tecnológicos para a comercialização do biocombustível da E. coli mas, uma vez que ele for desenvolvido, conseguiremos simultaneamente responder à crescente procura global e reduzir as emissões de dióxido de carbono.
As equipes de Exeter e da Shell revelam que, atualmente, seria necessário um composto unindo “100 litros de bactérias” para conseguir apenas uma colher de chá do biocombustível. Os pesquisadores querem estudar a E. coli por um período de três a cinco anos para conferir se a produção pode ser aprimorada e, assim, tornar-se comercialmente viável.
Há, especialmente nos países desenvolvidos e emergentes – os maiores emissores de gases-estufa -, um apelo pela maior adoção de biocombustíveis. A União Europeia quer crescer em 10% o uso destas substâncias. O problema, até agora, era a falta de recursos tecnológicos.
A equipe de Love também pesquisará se as bactérias podem converter outros produtos em combustível, como o lixo.
Fonte: O Globo, terça-feira, 23 de abril de 2013, Ciência Economia Verde.

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