sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sergio Machado Corrêa, do Departamento de Química e Ambiental da Uerj em entrevista de notícia para O GLOBO

Só 14 unidades automáticas medem o ar que o carioca respira

Veículos são responsáveis por 77% das emissões atmosféricas no Rio, que tem 160 bairros

Com uma frota que triplicou em 20 anos — foi de 838.521 para 2.529.432 — os veículos são os grandes vilões do ar que o carioca respira. Eles são responsáveis por nada menos do que 77% das emissões atmosféricas no Rio, segundo o último inventário feito pelo Instituto estadual do Ambiente (Inea). A rede de monitoramento e de informações sobre esses poluentes na capital, no entanto, deixa a desejar. O município, que tem 160 bairros, conta somente com 14 estações automáticas, que medem gases e partículas totais e inaláveis, e repassam informações on-line. A partir de medições das oito unidades operadas pela prefeitura, são elaboradas séries históricas curtas, já que quatro delas só começaram a funcionar em dezembro do ano passado. As outras seis, monitoradas pelo Inea e por indústrias, emitem boletins diários parciais, mas os dados consolidados mais recentes são de 2009.

Quatro unidades fora de operação

Num universo de poucas estações automáticas, quatro unidades do Inea não estão operando. As instaladas na Escola Tia Ciata, no Centro, e no Hospital Lourenço Jorge, na Barra, dependem de ligações de energia. As outras duas, prontas, aguardam a conclusão de obras físicas para serem colocadas no Engenhão e em Deodoro. Mais 11 — incluídas no chamado pacote olímpico e compradas com R$ 6 milhões do Fundo de Conservação Ambiental (Fecam) — estão sendo montadas na sede do Serviço de Monitoramento da Qualidade do Ar do Inea, no Recreio, e serão colocadas junto a equipamentos esportivos usados durante as Olimpíadas de 2016.


Com o funcionamento dessas 15 unidades, a rede de monitoramento da capital vai mais que dobrar. Mesmo assim, continuará insuficiente, de acordo o professor Sergio Machado Corrêa, do Departamento de Química e Ambiental da Uerj, que, desde 1996 estuda a qualidade do ar na Região Metropolitana:
— O Rio deveria ter mais de 50 unidades para medir gases e partículas, ou seja uma estação automática no vértice de cada área de quatro quilômetros quadrados, descontando locais de mata, como a Floresta da Tijuca.
Ao analisar as medições feitas pelo estado, a presidente do Inea, Marilene Ramos, conclui que Jacarepaguá — região onde acontecerão os principais eventos da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) — e Santa Cruz são as áreas da capital com pior qualidade do ar. Em toda a Região Metropolitana, a situação é mais grave em Duque de Caxias.
A presidente do Inea informa ainda que foram aprovados pelo Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam) R$ 24 milhões para serem usados no monitoramento do ar do estado. Descontados os R$ 6 milhões usados na compra de 11 equipamentos, o restante será aplicado na modernização da rede.
Entre os gases medidos estão o carbônico (CO), os óxidos de nitrogênio, o ozônio presente na troposfera (porção mais baixa da atmosfera) e os hidrocarbonetos totais. Para o professor Sergio Machado Corrêa, isso não é suficiente:
— Os órgãos de meio ambiente medem os poluentes determinados pela legislação. Mais de cem gases não são medidos separadamente, como o benzeno e o formol, que são altamente poluidores.
Corrêa defende ainda o investimento desses órgãos em simuladores da qualidade do ar:
— Esses equipamentos podem levar a respostas sobre, por exemplo, a eficiência de rodízio de carros, a expansão da rede de metrô e de ônibus rápidos, e a novas formulações para os combustíveis. Podemos usar simuladores para prever o impacto de políticas públicas, antes de elas serem implementadas. Mas, para que sejam confiáveis, eles precisam ser calibrados por uma rede ampliada de qualidade de ar. Também devem ser desenvolvidos por instituições locais, para que não sejam comprados do exterior como caixas-pretas.
Em relação ao vilão do ar, Corrêa justifica que, apesar de os veículos emitirem menos poluentes do que há 20 anos, a frota aumentou muito. A sua grande preocupação, hoje, é com o crescimento do número de motos:
— Uma moto emite 20 vezes mais poluentes que um carro, porque não tem injeção eletrônica, catalisador nem sistema antievaporação.
Álcool produz menos monóxido de carbono
A partir de pesquisas que fez e de outros trabalhos publicados, o professor Sergio Machado Corrêa, do Departamento de Química Ambiental da Uerj, não tem dúvidas: o etanol (álcool) é o combustível menos poluente. Relatório do inventário nacional de emissões atmosféricas de 2011, feito pelo Ministério do Meio Ambiente, mostra que, na média, veículos automotores movidos à gasolina comum produzem menos monóxido de carbono (CO) e óxido de nitrogênio (NOx) do que os que usam etanol hidratado. Em hidrocarbonetos (NMHC) e aldeídos (RCHO), a vantagem é da gasolina.
— O CO e o NOx são mais tóxicos dos que os outros dois gases. Além disso, o etanol é renovável. Para obtê-lo, é preciso plantar cana de açúcar, que retira gás carbônico da atmosfera. É um ciclo fechado. O álcool é menos poluente até que o gás natural veicular, sendo que a qualidade do kit melhorou desde que foi implantado no fim dos anos 1990. O álcool polui tanto quanto o gás, só que este é fóssil. O veículo movido a etanol deveria estar sendo analisado mais seriamente e incentivado. Mas, para isso, é preciso discutir a relação do preço do etanol frente ao da gasolina, em função do uso da cana para a fabricação do açúcar — diz o professor.
Já o carro flex, afirma ele, tem desvantagens:
— O carro flex gasta 15% a mais de combustível que veículos movidos só a gasolina ou a álcool. Isso ocorre em função das diferentes taxas de compressão dos motores a álcool e à gasolina. O carro flex funciona em um valor médio, que não é tão eficiente para queimar o etanol, a gasolina ou a mistura de ambos.
Entre os combustíveis, os maiores poluidores são a gasolina e o diesel:
— Eles emitem os mesmos gases, mas o diesel é mais nocivo, pois é usado por veículos pesados: ônibus e caminhões. Eles também percorrem grandes distâncias e acabam poluindo mais. Seis por cento da frota brasileira são movidos a diesel e consomem 42% dos combustíveis.
Leia esta notícia na íntegra em:http://oglobo.globo.com/rio/so-14-unidades-automaticas-medem-ar-que-carioca-respira-4947910#ixzz1vtQuwP00

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